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O texto argumenta que, em um país marcado por forte desigualdade, líderes empresariais precisam reconhecer o alcance social de suas decisões. A geração de resultado econômico continua central, mas deve ser acompanhada de ética, senso de responsabilidade e atenção concreta aos efeitos sobre colaboradores, fornecedores, clientes e comunidades.
Vivemos em um país abundante em recursos naturais, mas
carente de infraestrutura, educação e civilidade. A concentração de renda
sempre foi um tema presente na nossa sociedade. Quando comecei minha
alfabetização, há mais de três décadas, esse já era um assunto recorrente e
continua atual. Fui investigar se houve alguma melhora e a descoberta não foi
animadora: embora o Índice de Gini do Brasil (que mede a desigualdade de renda,
variando de 0 = igualdade a 1 = desigualdade total) tenha apresentado alguma
redução desde os anos 1980, o país ainda figura entre os mais desiguais do
mundo.
E o que isso tem a ver com a tomada de decisão empresarial?
Meu ponto é que, para se chegar ao topo, seja como executivo, fundador ou
conselheiro, é muito provável que essa pessoa tenha tido acesso à educação de
qualidade, melhores condições sociais e redes de apoio mais estruturadas do que
a maioria da população.
Esses profissionais aplicam seu intelecto, energia e acesso
à informação para atender às necessidades do mercado, ou seja, da própria
sociedade em que estão inseridos. Oferecem produtos e serviços a esse público,
frequentemente contando com mão de obra de baixo custo, que reflete as
desigualdades estruturais do país. Em outras palavras: em um Brasil
desigual, o acesso privilegiado ao conhecimento e à oportunidade coloca alguns
em vantagem desproporcional, o que impõe responsabilidades.
É por isso que defendo que líderes empresariais tenham plena consciência do impacto coletivo de cada uma de suas decisões. Algo na linha de: “O fato de viver em uma sociedade desigual contribuiu para que eu chegasse até aqui. Como posso agir, portanto, para devolver parte desse benefício à sociedade e contribuir para reduzir essa desigualdade?”
O impacto das decisões empresariais vai muito além dos
números no balanço. Ele atinge diretamente:
Tomar decisões conscientes e éticas, portanto, não é
apenas um diferencial, é uma obrigação moral. Os gestores e conselheiros
precisam considerar a função social da empresa como parte de sua
responsabilidade fiduciária, conforme previsto na própria legislação brasileira
(como nos artigos 116 e 154 da Lei das S.A., e artigo 170 da Constituição
Federal).
Acredito que a função principal de uma empresa é, sim, gerar
resultados econômicos. Sou defensor do capitalismo e do mérito, acredito no
esforço individual. Mas isso não pode se dar em dissociação da ética.
Meu apelo aqui é que coloquemos a ética como critério incondicional para
a tomada de decisões.
Em um país tão desigual quanto o nosso, liderar é mais do
que decidir, é influenciar o futuro de muitos. Que líderes empresariais se
reconheçam como agentes de transformação, com poder de moldar uma sociedade
mais justa e equilibrada. E que façam da função social das empresas não um
anexo à estratégia, mas o centro da tomada de decisão.
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